quinta-feira, 2 de abril de 2009

Cerco ao Forte Sancerre

Ola.
Eu sempre ouvi falar que algumas tribos indígenas praticavam o canibalismo, porem na faculdade foi comentado sobre "Cerco ao Forte Sancerre", nesta ocasião os europeus, que tanto criticavam o canibalismo indígena, praticaram o canibalismo.
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Quem conta-nos essa historia é o jovem Jean de Léry (Côte-d'Or, 1534 - Suiça, 1611). Em 24 de Agosto de 1572, na chamada "Noite de São Bartolomeu", os católicos assassinaram inúmeros protestantes na França, dando início a uma guerra civil que dividiu o país.Com outros protestantes, ele resistiu a um cerco de tropas católicas contra a cidade de Sancerre. Léry ensinou aos demais a dormir em redes e sobreviver comendo quase nada. Os católicos terminaram por desistir do cerco sem prejudicar tanto os protestantes. A história desse cerco está narrada no primeiro livro de Léry, "História Memorável da Cidade de Sancerre". Nesse livro Léry acusa os franceses de serem mais bárbaros do que os índios canibais que conheceu no Brasil.

Jean de Léry viveu na França na segunda metade do século XVI, época em que as chamadas guerras de religião opuseram católicos e protestantes. Nos textos abaixo, ele relata o cerco da cidade de Sancerre por tropas católicas.


§ 10. Em concluzão direi, que embora a fome que no anno de 1573 sofremos durante o cerco de Sancerre, deva ser colocada na ordem das mais terriveis de que jamais tenhamos ouvido falar, como se póde ver na istoria que imprimi d’esse cerco; todavia não faltou agua nem vinho, não obstante ser mais longa, como ali notei; e posso dizer, que ela não foi tam rigoroza como a fome de que aqui se trata; pois ao menos em Sancerre tinhamos algumas raizes, ervas bravias, rebentos de videira, e outraa couzas, que em terra podiamos axar.
Aprouve a Deos abençoar as creações, e ainda aquelas que não entram no uso comum da alimentação dos omens, como péles, pergaminhos e outras iguaes mercearias, cujo catalogo fiz, e de que vivemos n’esse assedio; e como experimentei que isso tem valor em cazo de necessidade, devo declarar, que, si eu estivesse assediado em qualquer praça por amor de uma bôa cauza, não me renderia com temor da fome emquanto tivesse cabeções de couro de bufalo, vestuarios de camuraça e couzas similhantes, em que existe suco ou umidade.
No mar porém, na viagem de que falo, estivemos reduzidos á estremidade de só termos páo-brazil, madeira seca e sem umidade, e todavia muitos companheiros, urgidos pela mizeria, a mascavam na falta de outra couza: de sorte que o senhor Dupont, nosso condutor, mastigando um pedaço d’essa madeira em certa ocazião, dice-me, soltando grande suspiro: - Ah! de Leri, meo amigo, tenho em França uma partida de 4.000 francos; e prouvéra a Deos podesse eu dal-a para ter um pão grosseiro e um copo de vinho.
Quanto ao mestre Pedro Richier, atualmente ministro da palavra de Deos na Roxéla, dirá esse bom omem, que por debilidade esteve durante a viagem estendido a fio comprido no seo pequeno belixe, sem poder erguer a cabeça para orar a Deos, a quem, apezar de prostrado como estava, fervorozamente invocava.

Entre exemplos por mim citados na istoria de Sancerre, de pais e mãis, que comeram os proprios filhos, como soldados, que provando a carne de corpos umanos, mortos na guerra, depois confessaram, que, si a aflição continuasse, estavam deliberados a investir contra os vicos, posso assegurar, alem d’essas couzas prodigiozas, que duratne a nossa fome no mar andavamos tam prezarozos, que, si nos não contivesse o temor de Deos, não poderiamos falar uns com outros sem nos agastarmos; e o que peior era (e Deos nos queira perdoar) sem lançar olhadelas e esgares acompanhados de má dispozição tocante a esse acto barbaro.

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